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A tradição ética helênica

GRENZ, Stanley. A busca da moral: fundamentos da ética cristã. Tradução de Almiro Pisetta. São Paulo: Vida, 2006. Resenhado por Gilberto Theiss.

A tradição ética helênica foi marcada pelo desenvolvimento filosófico de grandes filósofos nos tempos gregos e que largamente influenciou o mundo pós Grécia, alcançando mesmo algumas religiões do passado e até do presente, especialmente o cristianismo. Em sentido mais amplo e geral, pode-se definir a ética como “filosofia moral” que “envolve a reflexão sobre a moralidade, problemas e juízos”. Como já mencionado acima, a reflexão moral não se restringe apenas aos cristãos, uma vez que fora discutida mesmo entre os grandes filósofos. Eles puderam fornecer o molde “que deu forma à tradição ética ocidental”. Embora muitos dos códigos de ética tenham vindo de muitas discussões filosóficas helênica, o cristianismo herdou grande parte de sua ética do povo hebreu.

Dez motivos para ler mais devagar

É preciso redescobrir a arte da leitura
A velocidade da internet nos fez desaprender a arte da leitura. É preciso redescobri-la. Quando abandonamos as distrações digitais e lemos um livro com calma, mesmo que por pouco tempo, cultivamos algumas habilidades fundamentais que corremos o risco de perder. Para quem está destreinado, reacostumar-se à leitura lenta ou praticá-la pela primeira vez pode dar trabalho. Não há motivo para preocupação. Os livros – sempre eles – podem ajudar. São incontáveis os autores que pretendem nos ensinar a ler melhor. Entre eles, o crítico literário americano David Mikics é o que mais chamou minha atenção, com seu livro recém-lançado Slow reading in a hurried age (A leitura lenta numa era apressada). O título explica tudo – perfeito para quem quer capturar a atenção de leitores apressadinhos. Ao longo de 336 páginas, Mikics defende os benefícios da leitura lenta e se propõe a ensiná-la. É a mais apaixonada declaração de amor aos livros que li nos últimos tempos. Na coluna de hoje, divido algumas de suas dicas para quem quer abandonar a pressa.

1. Saiba por que você está lendo. Ninguém lê um livro apenas para passar o tempo. Na internet, no celular ou na tela da televisão, não faltam outras opções mais atraentes e acessíveis para quem quer relaxar nas horas vagas enquanto o sono não vem. Ler um livro é uma atividade diferente de todas elas. Lemos porque estamos procurando respostas para algo – talvez uma pergunta que ainda não tenhamos feito. Pense nisso. Ler sem motivo é uma receita infalível para ler mal. Antes de começar um novo livro, tente responder a esta questão simples: O que você espera tirar dessa leitura? É uma maneira de escolher melhor os livros que lemos – e de garantir que a pergunta será respondida.

2. Fuja da microleitura. Engana-se quem diz que a televisão é a principal inimiga dos livros. A maior distração dos leitores, hoje em dia, é a própria leitura. Dedicamos a maior parte de nosso tempo na internet a uma leitura fragmentada, superficial, com péssimos índices de compreensão e retenção. Você pode passar o dia inteiro lendo posts no Facebook e notícias curtas em portais. Daqui a um mês, não se lembrará de nada. Repetir esse comportamento por um longo prazo é matar a mente de inanição. “Não dá para viver dessa dieta”, diz Mikics. “Até para ler apenas uma página de literatura de verdade é preciso ter tempo para refletir.”

3. Aprenda a perder. Um dos erros mais comuns entre apaixonados por livros é não respeitar seus próprios limites. A lista de leituras pendentes é interminável e não há tempo a perder. Mal viramos a primeira página e já pensamos em acabar a história, e no próximo livro que leremos em seguida. Com isso, a leitura passa a ser uma fonte de estresse. A vontade de terminar o livro é tão grande que não somos capazes de aproveitá-lo. Reconhecer que não conseguiremos ler tudo o que queremos é fundamental para aproveitar a leitura. “Como você lê importa muito mais do que quanto você lê”, diz Mikics. Ler cinco livros com prazer é muito melhor do que ler cinquenta sem refletir sobre eles.

4. Respeite o autor. Você pode até não perceber, mas a internet se molda às suas vontades. Seus amigos nas redes sociais provavelmente pensam como você. Algoritmos do Google e do Facebook selecionam e exibem o conteúdo que tem mais chances de agradar alguém com o seu perfil. Você pode passar um dia inteiro na internet sem encontrar alguém que tenha bons argumentos para discordar de suas opiniões. Ler um livro, pelo contrário, é um exercício permanente de questionar convicções. É deixar de ser protagonista para ser ouvinte. Na leitura, a opinião do autor é muito mais importante do que a do leitor. É preciso deixar as preferências pessoais de lado para entender um livro por completo, mesmo que discordemos dele. Só quem aprende a ouvir e aceitar opiniões diferentes conseguirá aproveitar a leitura.

5. Desconfie do autor. Endeusar um autor pode ser ainda mais perigoso do que rechaçá-lo logo de cara. Qualquer livro, mesmo os grandes clássicos, é cheio de idiossincrasias típicas de qualquer obra humana. Analisar as escolhas do autor e fazer perguntas sobre elas é uma maneira de dar ainda mais profundidade à leitura. O que cada personagem representa? Por que o livro termina da maneira como termina? O que mudaria se a história se passasse nos dias de hoje? Alguma das opiniões do autor seria considerada polêmica ou inaceitável atualmente? Condenar o autor é injusto e inútil, mas fazer perguntas desse tipo é um passo importante para garantir que tiraremos o melhor de cada livro.

6. Imagine novas histórias. Para terminar um livro, o autor é obrigado a tomar decisões. Das inúmeras histórias diferentes e contraditórias imaginadas por ele, apenas uma chega ao leitor na história publicada. Por que ela foi escolhida? Por que a trama não se desenrolou de outra forma? As perguntas parecem infantis, mas são um passo essencial para quem quer entender melhor o autor. Pense nas maneiras diferentes como o livro poderia ser escrito. Imagine histórias paralelas e tente se colocar na cabeça do escritor que decidiu descartá-las. Ralph Waldo Emerson escreveu uma bela frase sobre o assunto: “Assim como existe a escrita criativa, existe a leitura criativa.” O que não está no livro pode ser tão estimulante quanto o que chegou às páginas da versão final.

7. Viva com o livro. “Olhar para um tweet demora alguns segundos; entender um romance demora dias, às vezes semanas”, diz Mikics. Pela sua natureza, o livro é algo que nos acompanha no dia a dia, mesmo quando não estamos diante de suas páginas. Pensar num livro quando estamos longe dele é uma parte indispensável da leitura lenta. Leve seu livro para passear, ainda que mentalmente. Lembre-se dele nas situações mais inusitadas do cotidiano. Se você tiver sorte, isso mudará algo na sua forma de ver o livro (ou a vida). Umtweet dificilmente teria esse efeito.

8. Repita até aprender. Com tantos livros para ler em tão pouco tempo, a releitura poderia ser vista como um pecado a ser evitado a todo custo. Na prática, ela é essencial. Mikics recomenda que todos os leitores tenham uma prateleira de livros favoritos e releiam ao menos partes deles com frequência. Cada leitura é uma redescoberta. Uma das mais verdadeiras frases sobre esse hábito foi escrita pelo romancista Robertson Davies: “Um livro verdadeiramente grandioso deve ser lido na juventude, na maturidade e na velhice, da mesma forma que um prédio bonito deve ser visto de manhã, ao entardecer e à luz da lua.”

9. Encontre sua próxima leitura. Uma boa leitura pode ser definida como uma conversa franca entre leitor e escritor. Quando embarcamos nela, é comum entreouvirmos, à distância, diálogos entre o autor do livro e outros autores. Um leitor curioso não deve perder a chance de acompanhar essas conversas. Um bom livro serve como porta de entrada para uma infinidade de outros, igualmente valiosos.

10. Reavalie sua vida. A experiência da leitura, segundo Mikics, é comparável a uma visita a um país estrangeiro. Podemos nos comportar como turistas impacientes, que estranham quaisquer novidades e não veem a hora de chegar em casa. Mas é muito mais recompensador aprender com as diferenças culturais, aceitá-las, descobrir um novo universo e reavaliar sua vida com base nessas descobertas. Cada livro é um país desconhecido. “Aproveitar ao máximo a viagem a esse novo território significa se render aos sons e paisagens do lugar, mantendo-se alerta a todas as suas surpresas. Só depois você pode julgar o que viu”, afirma o autor. Cada nova leitura é uma chance de escolher se seremos viajantes curiosos ou turistas apressados. Nunca é tarde para aproveitar a viagem.

(Danilo Venticinque, Época) via (Criacionismo)

O missionário no contexto das reformas religiosas

O missionário no contexto das reformas religiosas

Resenhado por Larissa R. S. Theiss [1]

Referência Bibliográfica: PROSPERI, Adriano. “O missionário”. In: VILLARI, Rosário. O homem barroco. Lisboa: Editorial Presença, 1995, pp. 143-171.

No capítulo VII do livro intitulado “O homem barroco”, o historiador Adriano Prosperi aborda determinadas reformulações ocorridas no cristianismo, enfaticamente no catolicismo, durante os séculos XVI e XVII, tendo como foco principal a figura do missionário.
O autor inicia sua análise citando a carta de 15 de Janeiro de 1622 onde é anunciada a criação da Congregação “de Propaganda Fide”. No referido documento, fica claro que existem duas maneiras do ofício católico zelar pela fé: uma que se refere aos fiéis, para a qual a Santa Inquisição foi instituída; e outra que se refere aos infiéis, para os quais existem as missões. Em meados do século XVI, o uso da violência como instrumento de conversão era defendido como aplicável para todos os povos, sem discriminação. No entanto, no século XVII, transformações ocorridas no cristianismo lançaram dúvidas e incertezas onde antes predominava a certeza sobre a verdade da época da Reforma. Os seres humanos se tornaram mais difíceis de compreender e de guiar. Dessa forma, a tarefa do missionário e a escolha da persuasão por meios não violentos acabam ganhando destaque.
Relacionado à tarefa do missionário de falar para pessoas de terras distantes, estava o relato das missões. Os mesmos homens que se dedicavam à pregação também se dedicavam a escrever sobre os acontecimentos das missões. E ligado a esses textos surgiu um grande trabalho editorial que visava exatamente à propaganda. Os textos serviam de fuga, mas também de incentivo para os que na Europa ficavam. Prosperi salienta a transformação ocorrida nestes textos, que acabam deixando de falar sobre martírio em nome da fé para exaltar a essência missionária onde a conquista não é feita por meios violentos e passa pelo estabelecimento de uma relação de ensino, de demonstrações de superioridade de um conhecimento sobre o outro. Com o passar do tempo, os textos missionários passam a indicar cada vez mais a escolha da persuasão e da instrução ao invés do uso da força. No século XVI, a questão do uso da força como forma de espalhar a fé, e a discussão em torno de coagir ou não os povos fora da Europa a aceitarem o cristianismo se tornou uma grande polêmica.
Não há dúvida que o uso da força para a conversão era o instrumento na conquista da América. A questão era problemática quando se falava das missões em países não dominados militarmente pelos europeus, como Índia, Japão e China. Fazendo uso da discórdia existente entre os padres responsáveis pelas missões japonesas acerca de como se devia proceder, o autor do texto explica a importância da questão das cerimônias, ou seja, do comportamento social, para a tática da persuasão e da simulação, defendidas pelo padre Alessandro Valignano.
Prosperi indica que a criação de normas de comportamento era um aspecto muito importante na cultura italiana da época de Valignano e que essas regras tinham a ver com os deveres do indivíduo para com a sociedade, quem não conseguisse pô-las em prática não podia ser considerado membro da mesma. Para o autor, no âmbito religioso, o reflexo dessa elaboração de regras de comportamento pode ser visto na polêmica da Reforma e no missionário.
As discussões giravam em torno da necessidade de adaptar-se a quem tinha concepções religiosas diferentes, e que tipo de simulações eram necessárias para conquistá-los. Valignano defendia a ideia de que era necessário ganhar o respeito e autoridade por parte dos japoneses e que para isso, os missionários deveriam se adaptar a um papel social mais condizente com os religiosos europeus. Os ritos do chá eram mais importantes do que os ritos sagrados do cristianismo, a descortesia era o maior pecado. As diferenças sociais deviam ser bem marcadas, o que implicava agir de um modo que não estava de acordo com as regras cristãs.
Obviamente a argumentação era de que tudo não passava de fingimento, uma simulação para conseguir conquistar o povo japonês para o catolicismo. No entanto, a simulação fora tão bem feita que os missionários já quase não eram reconhecidos por seus próprios superiores e seus comportamentos geravam escândalo. As preocupações dos superiores eram grandes, e no entanto, a adaptação aos costumes e padrões culturais continuava a ser a única opção em lugares onde a Europa não se sobressaía culturalmente ou não dominava militarmente.
O problema se intensificou com a “questão dos ritos”, que envolvia a opção dos jesuítas em tributar honrarias aos defuntos com a argumentação de que eram ritos “civis” e não religiosos. O Santo Ofício e o papa optaram pela condenação das escolhas dos jesuítas e o resultado dessa disputa em torno da criação de regras de comportamento foi “a vitória final da intransigência inquisitorial sobre a abertura missionária, reduzindo-se a Inquisição a instrumento nas lutas internas entre as forças organizadas para salvaguarda da cidadela da ortodoxia.” (PROSPERI, 1995, p. 161)
Adriano Prosperi aponta também para o fato de que em meados do século XVI se tornou comum fazer referências às “Índias do lado de cá” como uma maneira de chamar o trabalho missionário realizado em territórios de países católicos. O envio de missionários para esses campos fez-se necessário devido às duras críticas realizadas ao clero, que se intensificaram por causa da Reforma e também pelo medo de que as ideias reformistas se estabelecessem firmemente na Itália. Por essa ocasião, na verdade a “missio” era uma tarefa delegada aos religiosos por suas autoridades maiores. Tarefa essa que muitas vezes criava oposição entre os poderes religiosos central e local, representados respectivamente pelo missionário e os padres. Além de problemas com o clero local, os missionários também podiam enfrentar situações como a total inexistência de representantes religiosos locais. Também se desenvolveu uma literatura de viagens ligada a essas missões e é possível observar elementos análogos aos da literatura das missões fora da Europa. A fúria da natureza e dos homens, o desejo de martírio, aparições sobrenaturais de Maria, anjos e demônios são algumas características comuns às literaturas de viagens.
Além disso, nota-se a dualidade com que os missionários retratam os lugares por onde passam e as pessoas com quem mantêm contato. A terra é sempre um paraíso terrestre, mas cheio de miséria e agruras. Os povos, cheios de superstições e sem refinamento, são selvagens bem dispostos para seguir o evangelho. É importante frisar que nesta época a estratégia de conquista católica já havia mudado. O uso da força não era totalmente descartado, mas já se sabia que algo mais era necessário para que a fé imposta criasse raízes.
Nesse contexto, entram a figura do missionário e os métodos desenvolvidos para cumprir essa tarefa. Pelo fato dos territórios estarem unidos pela organização das ordens religiosas, pelos mesmos homens e as mesmas ideias, as ferramentas usadas para as “Índias de lá” acabaram sendo usadas também nas “Índias de cá”.

As linhas de organização dessa experiência foram sobretudo duas: as artes da <> e da simulação elaboradas para as culturas <> e para os países não dominados militarmente por príncipes cristãos – Japão e China – foram reservadas para as classes dominantes, e, em especial, para os soberanos dos estados europeus não católicos. As técnicas didácticas destinadas aos <> da América foram utilizadas nas missões internas que invadiram os campos dos países católicos. (PROSPERI, 1995, p. 165)

A dominação e direção das consciências dos príncipes são apontadas por Prosperi como a adaptação dos métodos usados no Japão e na China para países europeus. Dominando os príncipes, podia-se governar através deles e assim espalhar o catolicismo. Entre os príncipes não católicos, homens atuavam para aproximá-los do catolicismo. Entre os que já professavam a fé, tentava-se institucionalizar o domínio já existente.
A educação também foi uma ferramenta usada para expandir a fé católica entre a elite. Seminários foram instituídos, filhos de nobres eram mandados para estudar com príncipes católicos, bolsas de estudos e promessas de boa colocação profissional eram oferecidas para jovens burgueses. A intenção era usar a ciência e a formação das elites para fazer o catolicismo enraizar-se.
Conquistar os camponeses para o catolicismo era outra das atividades missionárias e essa requereria uma estratégia eficaz. Existiam relatos de campos europeus onde os camponeses não sabiam nem quantos eram os deuses cristãos. Essa situação dramática acabou transformando a “missio” em uma instituição. A “missão” deixa de ser apenas uma tarefa e passa a ser um lugar para o combate da ignorância.
As estratégias para essa luta eram basicamente duas: comoção seguida de penitência, e o ensinamento dos preceitos do catecismo. Para o ensino do catecismo a imprensa foi de grande ajuda: folhetos que misturavam instruções de boas maneiras e ensinamentos religiosos eram impressos. No entanto, por seus aspectos sociais e comunitários, o foco principal estava nas penitências.
 As questões da penitência e do controle dos sentimentos de culpa estavam no centro do cristianismo desde a época da Reforma. Técnicas ligadas à oratória, práticas teatrais e exercícios espirituais foram criadas para estimular e controlar essas emoções. A eficácia dessas técnicas foi comprovada com a sua aplicação nas missões entre os fiéis dos campos.
Prosperi descreve como se desenvolveu então um sistema teatral complexo, que tinha o início marcado pela chegada inesperada e ás vezes escondida do missionário. As igrejas se tornaram espaços teatrais com os membros da comunidade se humilhando e se penitenciando. Os pregadores criavam tensão e drama propositalmente, e a penitência era a anulação das ofensas cometidas contra Deus, o fim da tensão. Os recursos teatrais, encenações, diálogos ensaiados eram inúmeros e a reputação do pregador advinha da eficácia deles.
Os pregadores também se utilizavam da estratégia de substituição para que as pessoas renunciassem aos maus hábitos: ofereciam indulgências em troca de objetos ligados aos vícios. A estratégia já era utilizada com os índios americanos e a partir de então, uma infinidade de rosários, água benta e objetos “santos” se alastrou por entre o povo católico.
Embora os jesuítas fossem os mais solicitados a usar o teatro como ferramenta de conversão, isso não era imposto pelas autoridades religiosas. Na verdade, havia muita desconfiança e cautela na questão de teatro envolvendo coisas sagradas.
Outro ponto a ser considerado é que o trabalho desenvolvido pelas missões operava transformações nas comunidades, trazia à tona novas práticas sociais e os missionários deveriam novamente adaptar-se. Somando-se a isso certa solidariedade por parte dos missionários para com as miseráveis condições de vida dos camponeses, ainda no século XVII é possível observar novas práticas, como a capacidade de ouvir mais do que hipnotizar com as palavras, a preocupação com as condições de vida ou o voto de assistência aos camponeses, fazendo parte de todo o aparato que envolvia as estratégias missionárias.
Adriano Prosperi finaliza suas considerações abordando que a questão da “Propaganda Fide” se insere com extrema modernidade no contexto das reformas religiosas. Essa inserção fez nascer um novo personagem, cheio de facetas como intelectualidade, perícia nas artes teatrais, espionagem, apoderação das consciências, manipulação dos sentimentos, e que eram usadas não para fins próprios, mas para o triunfo da causa de Deus. A história das atividades do missionário se constitui de muitíssimas contradições, e por isso mesmo, “merece ser recordada como uma das polaridades barrocas.” (PROSPERI, 1995, p. 171).  

[1] Larissa R. S. Theiss - Licenciando em História pela UFRB

O situacionismo: Há uma Norma Universal


O situacionismo: Há uma Norma Universal

Resenhado por Gilberto G. Theiss[i]

GEISLER, Norman L., Ética Cristã: Alternativas e Questões Contemporâneas. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, São Paulo-SP, 2008. pp. 52-65.

O situacionismo pode ser encontrado entre os extremos do legalismo e do antinomismo. Os antinomistas não tem leis, os legalistas têm leis para tudo, e o situacionismo de Fletcher tem uma só lei.
Esta visão ou ética está baseado no argumento de que há uma só lei para tudo, esta lei está enraizada no amor. Dentro deste exato contexto, procura fixar firmemente numa só norma  absoluta que possa ser aplicada a qualquer situação ética especialmente as mais complexas.

Para este conceito mais específico na visão de Fletcher, todos que colocam as leis comuns acima do amor, não passam de verdadeiros legalistas. Os legalistas podem ser tanto judeus, quanto católicos e protestantes, pois acreditam no amor ao dever, enquanto que o situacionismo sustenta o dever do amor. O dever do amor se torna o único imperativo ético que a pessoa deve ter, e no que diz respeito as outras regras morais, elas são úteis mas não inquebráveis.

Conforme destaca Fletcher, há quatro princípios funcionais do situacionismo:

 O pragmático -  quer dizer que o correto é apenas aquilo que é útil em nossa maneira de comportar-nos. É aquilo que funciona ou satisfaz em prol do amor.

O relativismo – há um só absoluto; tudo o mais é relativo a ele. Assim como a estratégia é pragmática, as táticas são relativistas.

O positivismo – sustenta que os valores são derivados voluntariamente e não racionalmente. O homem decide sobre seus valores; não os deduz da natureza.

O personalismo – Os valores morais não são apenas o que as pessoas expressam; as pessoas são os valores morais ulteriores. Não há coisas inerentemente boas; somente as pessoas são inerentemente valiosas.

A posição situacional pode ser explicada por suas preposições e a discussão coloca como base a norma absoluta do amor, sendo elas: a) Somente uma coisa é intrinsecamente boa, a saber, o amor e nada mais. B) A norma predominante da decisão cristã é o amor, nada mais. C) O amor e a justiça são os mesmos, porque a justiça é o amor distribuído, nada mais. D) O amor deseja o bem do próximo, quer gostemos dele, quer não. E) Somente o fim justifica os meios, nada mais.

Para o situacionismo, a aplicação da norma do amor age em detrimento de qualquer outra norma. Mesmo o adultério, a prostituição, o aborto, o suicídio e o assassinato, podem deixar de ser imorais se forem cometidos por uma base lógica e razoável do amor, onde as pessoas recebem o devido valor em detrimento das regras e das coisas. Entretanto, podemos encontrar algumas insuficiências do situacionismo. Entre elas podemos destacar que: a) Uma só norma pode ser demasiadamente generalizada; b) A situação nem sempre vai determinar o significado do amor; c) no âmbito geral, há muitas normas universais; d) é possível uma norma universal ser diferente ou entrar em contraste com a norma única de Fletcher; e) Uma ética de muitas normas pode ser defensiva e menos evasiva.

A norma do amor como regra absoluta, sobre todo este contexto, para Fletcher deve ser unânime e absoluta mesmo em detrimento de qualquer outra situação e regra, pois para ele, somente esta base única poderá governar de forma sólida a ética humana em todas as suas singularidades.

Crítica – Sem dúvida o situacionismo pode dar uma importante contribuição no que tange a regra áurea na ética contemporânea especialmente a cristã. Especialmente a cristã, pois, para aqueles que vivem sobre a dimensão viva dos valores cristãos, possuem razões definidas sobre a verdadeira essência da ética que permeia a vida religiosa. O amor é a base para toda a qualquer ética seja ela de âmbito cristão ou não. Por este motivo, com profunda convicção, acredito que o situacionismo peca ao desmerecer ou destronar as normas, sejam elas universais ou não. A razão de minha desqualificação do ponto de vista situacionista, se prende no fato de que, toda e qualquer norma jamais deve ser regida fora dos muros do amor. Creio que, as normas devem estar munidas ou permeadas da regra áurea. Não podemos supor que haja um dualismo ao considerar a regra do amor absoluto em detrimento da ética comum seja qual for ela. O amor não está acima das normas, assim como as normas não estão acima do amor. Este aparente dualismo deve ser incorporado num só valor unitário de padrão de ética. Para mim, lei sem amor não é lei, assim como amor sem lei também não pode ser amor. De alguma forma este casamento entre ambos não pode jamais ser encarado como uma espécie de jugo desigual, pelo contrário, mesmo em situações probantes, as duas normas devem agir como se fosse genuinamente apenas uma.


[i] Gilberto G. Theiss está Bacharelando em Teologia pelo Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia. 2º ano A, 4° Período.