23 maio 2016

O Deus do Antigo Testamento é o mesmo do Novo Testamento?


A pergunta comumente feita por muitos sinceros é se o Deus do Antigo Testamento seria o mesmo do Novo Testamento.

Como entender ações como a registrada em Deuteronômio 20:16 e 17 onde Deus ordena destruir totalmente os heteus, os amorreus, os cananeus, os heveus e os jebuseus? Como é que essa ação se relaciona com um Deus amoroso registrado especialmente no Novo Testamento?

Primeiramente, é importante compreender que as escrituras apresentam Deus como sendo em essência o amor. Este registro pode ser encontrado em 1 João 4:8. A Bíblia também ensina que Ele é o mesmo tanto antes quanto depois. Este fato pode ser confirmado em Malaquias 3:6, Tiago 1:17, Salmo 89:34 e Hebreus 13:8.

Portanto, se Ele é o mesmo ontem, hoje e eternamente, como afirma Paulo em Hebreus 13:8, significa que o Deus do Antigo Testamento deve ser o mesmo do Novo Testamento. Mas, como ficaria então a aparente contradição do caráter de Deus no Antigo em detrimento do Novo Testamento?

Esta aparente contradição é, de certa forma, tão estranha que tem servido de munição para ateus de plantão como o Biólogo Richard Dawkins. Assim ele escreveu em seu best seller:

“O Deus do antigo testamento é talvez o personagem mais desagradável da ficção: Ciumento, e com orgulho; controlador mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo. ”[1]

Como é percebivel, Dawkins não parece acreditar no amor do Deus do Antigo Testamento.
Portanto, levando em consideração o discurso de Dawkins, como entender está aparente contradição? Como compreender o caráter de Deus nestas duas circunstâncias?

Para viabilizar a compreensão, delinearei 4 pontos fundamentais que nos ajudarará a a lançar por terra a aparente contradição e a incerteza do amor de Deus.

1º - Lembre-se que Foi o Deus do Antigo Testamento que “amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito para que todos os que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (S.João 3:16). No próprio Antigo Testamento, em Jeremias 31:3, encontramos uma expressão semelhante, em que Deus mesmo faz a seguinte afirmação: “Com amor eterno eu te amei; por isso, com benignidade te atraí. ”

Como pode ser visto em Lucas 24:27, 44, a vida de Jesus no Novo Testamento é vista como sendo uma continuidade das obras do Deus do Antigo Testamento. Isto significa que não há diferenças de caráter em ambas ações. O amor, a benevolência, a misericórdia, o perdão e a compaixão de Deus podem ser vistas tanto no Novo quanto no Antigo Testamento. Foi esse mesmo Jesus que ofertou sua vida com intenso sofrimento quem também criou a humanidade (S. João 1:1-3) e que esteve presente na vida e na história do Seu povo do Antigo Testamento (João 1:14).

2º - Um ponto interessante a respeito das ações de Deus no Antigo Testamento é que o nosso desconforto sobre a descrição de Deus pode nos dizer mais sobre o mundo em que vivemos e sobre nós mesmos do que sobre Deus. Com certeza, um Deus zeloso e justo não será bem visto por uma geração profundamente indulgente e permissiva. A tendência das pessoas permissivas é desejarem um deus que seja conivente com as suas práticas de insanidade.

Até CS Lewis fez uma chocante acusação ao afirmar que: “Queremos na verdade, não tanto um pai celestial, mas um avô celestial – uma benevolência senil que, como dizem, gostasse de ver os jovens se divertindo.”[2]

Ou seja, a tendência é não apreciar um Deus que estabeleça limites, regras, leis e juízo, quando desejamos praticar coisas que aos Seus olhos são abomináveis. Um deus que bata as mãos nos ombros e que seja condizente com o “TUDO ESTÁ LIBERADO” é o deus desejado e sonhado por muitos.

Norman Geisler, teólogo e filósofo americano, a este respeito opinou afirmando: “Existem razões volitivas para rejeitar o cristianismo, a saber: a moralidade cristã, que parece restringir nossas escolhas na vida. Uma vez que a maioria de nós não quer responder a ninguém, ceder nossa liberdade para um Deus invisível não é algo que desejamos fazer naturalmente[3]. Portanto, parece existir uma preconcepção capaz de influenciar nossa visão de Deus.

3º - Embora Ele seja longânimo com a humanidade, chega um momento em que a justiça deve prevalecer e o pecado erradicado. Quanto ao exemplo citado no início, os amorreus foram exterminados porque ultrapassaram os limites da misericórdia de Deus e rejeitaram persistentemente os apelos dos profetas. Em Genesis 15:16, afirma que a medida dos amorreus ainda não havia estourado os limites da iniquidade, pois, se mais tarde eles tiveram que ser destruídos, significa que foram longe demais para serem ainda bonificados pela misericórdia divina. Portanto, a destruição das nações em Canaã não foi um ato precipitado de vingança, foi o resultado final de um Deus clemente e amoroso, que lhes ofereceu todas as oportunidades para que mudassem de atitude. Este fato pode ser comprovado em Números 22.

Como afirmou Michel Hasel, em sua obra “Porque Deus ordenou total destruição das nações cananeias?”[4]

“As proporções da degradação canaanita são claramente demonstradas por seus textos descrevendo práticas cultuais que incluíam sacrifícios de crianças e prostituição sagrada. As decisões que eles tomavam afetavam vidas ditas inocentes. Até mesmo as mulheres e as crianças foram afetadas pela profundidade do mal.”
Portanto, tanto as mulheres, idosos quanto as crianças foram tão profundamente afetados pela permissividade e a extrema maldade que pareciam literalmente demônios ou animais selvagens em forma humana.

4º - E por último, assim como uma mãe seria capaz de ir até as últimas consequências para salvar um filho de uma desgraça, Deus, algumas vezes, foi até as últimas consequências para salvar o Seu povo. Se Deus não tivesse destruído o corrompido povo antediluviano, o Seu remanescente é quem seria alcançado pela selvageria humana. Se Deus não tivesse destruído as cidades de Sodoma e Gomorra, a corrupção, a insanidade, a violência e a permissividade dessas cidades, não há dúvidas de que seria elas que acabariam, com o tempo, com o pequeno povo de Deus. Se Deus não tivesse dado a permissão para destruir os cananeus, da mesma forma, era o povo de Deus que deixaria de existir em algum momento da história. Portanto, como numa espécie de direção defensiva, como um pai amoroso que deseja proteger os seus filhos, Ele interveio em favor dos que escolhiam o bem ao invés do mal.

Por fim, isto significa que a misericórdia, a compaixão, o perdão e amor de Deus sempre foram visíveis tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Mas, a maldade e a perversão humanas quando ultrapassam os limites, acabam vindo de encontro com a justiça divina, especialmente quando o povo de Deus passa a ser diretamente ameaçado.

Gilberto Theiss – Pós-graduado em Filosofia e Ciência da Religião. Pastor Adventista do Sétimo dia no estado do Ceará.

Fonte e Leitura adicional

·         PFANDL, Gerhard. Interpretando as Escrituras. Casa Publicadora Brasileira, Tatuí-SP.
·         GEISLER, Norman; TUREK, Frank. Não tenho fé suficiente para ser ateu. Vida Acadêmica, São Paulo-SP.
·         RASI, Humberto; VYHMEISTER, Nancy. A lógica da fé. Casa Publicadora Brasileira, Tatuí-SP.
·         Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia. Casa Publicadora Brasileira, Tatuí-SP.



[1] The God Delusion, p.51
[2] O problema do sofrimento, p. 29
[3] Não tenho fé suficiente para ser ateu, p. 24
[4] Interpretando as Escrituras, p. 154

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