09 abril 2015

Comentário teológico da lição 3 - Quem é Jesus Cristo?


Quem é Jesus Cristo?

Pr. Gilberto Theiss

Reações diante de Jesus (Sábado e Domingo)

Notadamente a história de Jesus tem sido surpreendente por estar, especialmente, permeada de fatos sobrenaturais. É exatamente por esse motivo que ela é amada por muitos e, todavia, rejeitada por outros como sendo verídica.
Acredita-se que até o século XVIII era pouco o interesse em evidenciar os fatos que tornassem autêntico os evangelhos. Mas, com o tempo, essa realidade mudou. Assim descreve o teólogo espanhol Julián Carrón: "Desde o início, a Igreja Católica acreditou que os Evangelhos tivessem origem na figura histórica de Jesus, e sempre os considerou testemunhos de fatos acontecidos. Apesar disso, a partir do iluminismo, alguns estudiosos começaram a achar que os Evangelhos não tinham valor histórico e que era preciso encontrar outro tipo de correspondência entre eles e os fatos"[1]. Mas, embora haja céticos quanto ao fato de Jesus ter realmente existido da maneira como narram as Escrituras, é preciso reconhecer que, do ponto de vista científico historiográfico, essas narrativas bíblicas seguem fielmente todos os critérios e padrões necessários para dar sustento, embasamento e credibilidade histórica. Por exemplo, Lucas, que não era apóstolo e nem judeu, fala dos imperadores Cesar Augusto, Tibério; cita os governadores da Palestina: Pôncio Pilatos, Herodes, Filipe, Lisânias, Anás e Caifás (Lc 2,1;3,1s); Mateus e Marcos falam dos partidos políticos dos fariseus, herodianos, saduceus (Mt 22,23; Mc 3,6); João cita detalhes do Templo: a piscina de Betesda (Jo 5,2), o Lithóstrotos ou Gábala (Jo 19, 13), e muitas outras coisas reais confirmadas pela história secular.
Outro detalhe interessante é que os apóstolos e os evangelistas não podiam mentir. Eles jamais teriam inventado um Messias do tipo de Jesus: Deus-homem, crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gregos (1Co 1:18-23). O ponto em questão é que os relatos dos Evangelhos mostram um Jesus bem diferente do modelo do Messias "libertador político" que os judeus aguardavam ansiosamente por centenas de anos. Outro fato curioso é que homens rudes da Galiléia, como demonstravam ser, não teriam condições de forjar um Jesus tão sábio, santo, inteligente, desconcertante e, acima de tudo, amável e dócil com as classes mais desfavorecidas e drasticamente rejeitadas pelos próprios judeus.
Para complicar um pouco mais, a doutrina que Jesus pregava era de difícil vivência. Aqueles que desejam atrair multidões através da venda de suas ideias nunca projetariam um herói como foi Jesus com princípios tão difíceis de serem seguidos. O romano Tácito, por exemplo, classificava o cristianismo como "desoladora superstição", e Minúcio Felix  falava de doutrina indigna dos gregos e romanos.
Alguns concluem, portanto, que a história de Jesus não passou de um mero mito. Mas será que poderia um mito ter vencido o imensurável e poderosíssimo Império Romano? Será que uma fábula poderia sustentar milhares de martírios e perseguições por centenas de anos?
Tertuliano de Cartago, no terceiro século, escreveu: "o sangue dos mártires era semente de novos cristãos"[2]. Será que um mito poderia provocar tantas conversões? Será que uma lenda poderia manter uma Igreja que começou com um pequeno grupo de 12 homens judeus e após 2000 anos ainda possuir uma estrutura tão forte, poderosa e sólida entre raças e nações diferentes?
Outro fato que corrobora para a autenticidade histórica da vida de Jesus é que os fragmentos que constroem os evangelhos, comparados com outros documentos históricos, além de serem vantajosamente em maior número, mais de cinco mil cópias, são também os escritos que mais próximos estão do Seu personagem principal. Sobre este fato escreveu Wilson Parosqui: “O elevado número de documentos existentes faz com que o NT [Novo Testamento] tenha muito mais apoio textual que qualquer outro livro nos tempos antigos, seja em se tratando das obras de Homero, dos autores trágicos áticos, de Platão, de Cícero ou de César.”[3] Por esse motivo, os documentos que retratam a existência de Jesus, sob os critérios científicos são de longe, ou deveriam ser, os mais críveis que os documentos que retratam a existência de Eurípedes,  Sófocles, Platão, Catulo, Lucrécio, Terêncio, Lívio, Virgílio e Alexandre o grande.
Para os céticos que desconfiam das Escrituras, embora não haja razão sólida para descrer, ainda temos fontes extra-bíblicas da existência de Jesus. O romano Tácito, ao descrever o incêndio de Roma por volta de 116 d.C. apresentou uma pequena informação sobre os Jesus e Seus seguidores.[4] Flávio Josefo, historiador judeu (37-95), escreveu: "Jesus, homem sábio, se é que se pode chamar homem, realizando coisas admiráveis e ensinando a todos os que quisessem inspirar-se na verdade. Não foi só seguido por muitos hebreus, como por alguns gregos, Ele era tido como o Cristo.“[5] O Talmud[6], Suetônio e Plínio[7] também contribuem como fontes não bíblicas para o embasamento histórico de Jesus.
Não há dúvidas quanto à credibilidade desses documentos e sob esta perspectiva é que podemos também sustentar as narrativas que apresentam um Jesus não apenas histórico, mas também sobrenatural. Se as narrativas, do ponto de vista científico com detalhes históricos, sociais, políticos, geográficos, estão corretas, isto nos oferta um bom motivo para crer também nos milagres de Cristo. Sob a premissa filosófica, a história confirma os fatos sobre Jesus, e Jesus fez milagres, e os milagres só podem ser feitos por Deus, logo, Jesus de fato era o Deus encarnado. Foram justamente esses feitos que deram sustento às prerrogativas de Jesus, em perdoar pecados (Lc 5:24), assumir a posição de Messias (Lc 4:16-30), e de ser na mais pura essência, o pão da vida (Jo 6:35,41,48,51);   a luz do mundo (Jo 8:12);  a porta das ovelhas (Jo 10:7,9);   o bom Pastor (Jo 10:11,14); a ressurreição e a vida (Jo 11:25);   o caminho, e a verdade e a vida (Jo 14:6) a videira verdadeira (Jo 15:1,5), e o grande “Eu Sou” (Deus) (Jo João 8:58).
No início isso não pareceu ficar claro, mas no decorrer do ministério de Jesus, como nos dias de hoje, as multidões O seguiam ou pelo interesse no perdão dos pecados ou nos Seus favores sobrenaturais.

Filho de Deus e Filho do homem (Segunda e terça)

A expressão “Filho do Homem” é apresentada no Novo Testamento cerca de 88 vezes. Essa expressão, em sentido divino, aparece em Daniel 7:13-14: "Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele. Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído."
O termo "Filho do Homem" era um título. Quando Jesus usou esse termo (Mt 26:64), Ele estava atribuindo a profecia do “Filho do Homem” de Daniel a Si mesmo. Os judeus daquela época com certeza estariam bem familiarizados com o termo e a quem se referia. Ele estava proclamando ser o Messias, o libertador divino que viria a Seu povo. Jesus parece ter unido os papéis do Servo sofredor humano e do soberano Filho do homem de Daniel 7:13, 14. Ele unificou as duas verdades de que Ele era de fato o Deus YHWH que havia se humanado para se tornar conhecido e para salvar a humanidade.
Jesus era 100% Deus (João 1:1), mas para estabelecer o plano de redenção, como Messias, Ele também havia se tornado um ser humano (João 1:14). 1 João 4:2 nos diz: "Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus."  Ellen White descreve que “Ele devia vir como um membro da família humana, e estar como um homem perante o Céu e a Terra. Viera para tomar o lugar do homem, para penhorar-Se em lugar do homem, pagar o débito dos pecadores. Devia viver uma vida pura na Terra, e mostrar que Satanás havia dito uma mentira ao pretender que a família humana lhe pertencia para sempre, e que Deus não lhe podia tirar os homens das mãos.”[8]

O Cristo de Deus e a transfiguração (Quarta, quinta e sexta)

A confissão de Pedro é um divisor de águas a partir desse momento. Para Pedro, e consequentemente para os demais discípulos, a identidade de Jesus parece ficar mais clara. Nesse momento, a história passa de ensino e demonstração de autoridade para confissão e chamado ao discipulado[9]. Logo em seguida, Jesus explica o seu verdadeiro papel como Messias, que teria de sofrer (9:21, 22), e aqueles que aceitassem o Seu convite deveriam também passar por grandes adversidades (9:23-27). Em contraposição aos relatos de vocação (5:1-11. 27:32), a cruz é inserida no centro desse convite. Os discípulos recebem os primeiros lampejos do verdadeiro significado de Ele ser o Cristo, e das tribulações advindas deste conceito. A expressão “o Cristo” era justificada em sua prerrogativa divina e em Seus atos sobrenaturais, mas este sentido também deixava claro a definição do “discipulado”[10]. Jesus foi enfático ao afirmar: “se alguém quer ser meu seguidor, que esqueça os seus próprios interesses, esteja pronto cada dia para morrer como eu vou morrer e me acompanhe. Pois quem põe os seus próprios interesses em primeiro lugar nunca terá a vida verdadeira; mas quem esquece a si mesmo por minha causa terá a vida verdadeira.” (v. 23-25).[11]
Jesus não esteve se referindo às vicissitudes da vida, mas do compromisso diário com o reino de Deus e o chamado ao discipulado. Talvez o martírio ainda estivesse em foco, mas a lealdade diária ao mestre e a seu modo de vida. Pelo menos deve ter sido essa a compreensão inicial dos apóstolos. Sendo este o foco ou não, o que sabemos é que, mais tarde, o martírio seria o resultado final de todo o comprometimento inicial. O discipulado faria dos passos de Jesus em Seu sofrimento, perseguição e morte, os passos dos discípulos e de muitos outros que O seguissem ao longo da história.
A transfiguração de Jesus foi mais um episódio de confirmação divina da divindade de Cristo e de seu caminho até a cruz.[12] Novamente, a exemplo da oração de Jesus em Seu batismo, Lucas foi o único que registrou como Jesus esteve orando no momento da transfiguração. O escritor, provavelmente, desejava mostrar como os olhos dos discípulos se abriram ao contemplar aquela cena gloriosa. Sua aparência e suas vestes adquiriram forma cheia de resplendor jamais visto. Também puderam contemplar a presença viva daquele que havia morrido, porém ressuscitado e daquele que havia sido transladado ao Céu sem ver a morte. Moisés é o exemplo daqueles que descem a sepultura, todavia, serão resgatados dela na manhã da ressurreição (Jo 11:24; Jo 5:28, 29; Dn 12:1,2; I Ts 4:16, 17), enquanto que Elias se torna o exemplo dos fiéis da última geração, que virão da grande tribulação e que não verão a morte (I Ts 4:17; Ap 7:13, 14; 14:1-5). Segundo alguns comentaristas, em consonância com Isaías 8:20 e Mateus 5:17, Moisés também representava no monte da transfiguração a lei de Deus, a Torá, enquanto que Elias representava os profetas, os testemunhos.[13] Eles falaram com Jesus sobre a sua partida (do grego êxodos), isto é, de sua morte e ressurreição, confirmando assim o que Jesus havia profetizado no verso 22.[14] No entanto, o mais importante nesse ocorrido estava na nuvem, de onde surgiu a voz de Deus falando as palavras uma vez proferidas no batismo de Jesus (3:22), mas dessa vez se dirigindo aos discípulos. Nesta ocasião “Os discípulos contemplaram com temor e espanto a excelente majestade de Jesus e a nuvem que os cobriu e ouviram a voz de Deus com terrível majestade, dizendo: ‘Este é o Meu Filho, o Escolhido; ouçam-no’”.[15]

Gilberto Theiss é formado em Teologia pelo Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia, com Especialização em Filosofia pela Universidade Cândido Mendes. Atualmente é pastor no estado do Ceará pela Associação Costa Norte da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

REFERÊNCIAS

[1]BOSCOV, Isabela, Revista veja online. Disponível em: < http://veja.abril.com.br/151204/p_102.html > acesso em 06-04-2015.
[2] KAPELINSKI, Igor. A Bíblia é Verdadeira? São Paulo: Clube de Autores, 2009. P. 159.
[3] PAROSQUI, Wilson. Crítica textual do Novo Testamento, p. 19.
[4] Ver Anais XV,44
[5] Ver Antiguidades Judaicas, XVIII, 63a.
[6] Ver Tratado Sanhedrin 43a do Talmud da Babilônia.
[7] Ver Epístolas, I.X 96.
[8] WHITE, Ellen G. Para Conhecê-Lo [MM 1965], São Paulo, Tatuí. Casa Publicadora Brasileira, 1965. P. 26.
[9] CARSON, D. A. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo:  Vida Nova, 2009. P. 633.
[10] BROWN, R. E.; FITZMYER, J. A.; MURPHY, R. E. (Ed.) Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos Sistemáticos. Santo André: Academia Cristã, 2011. P. 266
[11] Nova Tradução na Linguagem de Hoje. São Paulo: Sociedade Bíblica do brasil, 2008. P. 1043.
[12] BROWN, R. E.; FITZMYER, J. A.; MURPHY, R. E. (Ed.) Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos Sistemáticos. Santo André: Academia Cristã, 2011. P. 266
[13] CARSON, D. A. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo:  Vida Nova, 2009. P. 1499.
[14] Ibd.
[15] WHITE, Ellen G. Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 5, P. 1261, 1262; Ver Primeiros Escritos, p. 162-164.

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