12 abril 2017

Boatos na rede: Cuidado com o que você compartilha


Na chamada “era da pós-verdade”, nem mesmo o mundo religioso está imune à boataria da internet. Mas por que, afinal, as pessoas consomem tanta informação falsa?

Essa avalanche de mentiras levou o Facebook, maior rede social online, a anunciar no início do ano medidas mais rigorosas para combater a disseminação desse tipo de informação, a partir da criação de mecanismos para que os usuários identifiquem mais facilmente e denunciem postagens suspeitas.

O fenômeno que tem ganhado espaço no debate público foi tema do fórum “O Papel da Mídia Brasileira na Era da Pós-Verdade”, promovido pela Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) na última terça-feira (4). Realizado na cidade de São Paulo, o evento reuniu jornalistas e representantes de vários segmentos do mercado editorial.

Entre os exemplos citados, os boatos envolvendo a campanha de Donald Trump receberam atenção especial. De acordo com um levantamento feito pelo Instituto de Internet da Universidade de Oxford, durante os últimos dias da corrida pela Casa Branca quase um quarto (23%) dos links de artigos e notícias compartilhados no Twitter pelos usuários da rede social, no disputado Estado de Michigan, direcionavam para teorias da conspiração. Algumas delas “provavam” que Hilary Clinton havia criado o Estado Islâmico, que Barack Obama era muçulmano e que o papa Francisco apoiava a candidatura do bilionário republicano.
Nem mesmo o mundo religioso está imune à boataria da internet. E o pior é que esses hoax, nome dado às farsas da web, sempre encontram alguém crédulo o bastante para acreditar neles e espalhá-los aos quatro ventos.

Em janeiro deste ano, uma publicação no Facebook, com a foto do personagem Zé do Caixão ao lado de um conhecido pastor adventista num templo da denominação, induziu muita gente a pensar que ele tivesse se convertido ao adventismo, conforme anunciava a postagem.
“Boatos escatológicos” também costumam vir à tona com frequência e se espalharem como fogo no mato seco. Uma “fofoca profética” que ganhou terreno no WhatsApp dava conta de que o papa Francisco teria pressionado o presidente norte-americano a assinar o decreto dominical. De vez em quando, esse tipo de informação bombástica é ressuscitado.


Provas falsas

Descobertas falaciosas ligadas ao mundo da arqueologia bíblica igualmente costumam pipocar na internet. “Uma simples busca no Google sobre arqueologia das terras bíblicas nos leva para um mundo encantado em que as histórias mais espetaculares das Escrituras são comprovadas pela pá de arqueólogos ‘famosos’. Arca de Noé, carruagens egípcias no fundo do Mar Vermelho, restos da peregrinação dos israelitas no deserto, ossos de gigantes, e, lógico, a descoberta da Arca da Aliança. Isso tudo, porém, só existe na internet”, esclarece Luiz Gustavo Assis, mestre em Arqueologia do Antigo Oriente Médio pela Trinity International University (EUA).

Para ele, a maioria dessas “descobertas” não passa de invenções da parte de pesquisadores amadores querendo validar eventos bíblicos por meio de fabricações ou de sensacionalismo barato. Várias delas são atribuídas a Ron Wyatt, um enfermeiro anestesista e arqueólogo amador, falecido há quase 20 anos.

Alguns de seus supostos achados já foram tema de um artigo escrito por Rodrigo Silva, especialista em arqueologia bíblica pela Universidade Hebraica de Jerusalém, na edição de março de 2009 da Revista Adventista. “Por mais de uma vez tive a oportunidade de visitar, com a equipe arqueológica da Universidade Andrews, os locais a que Wyatt faz referência. Coletamos dados, fizemos análises, entrevistas, etc. e, depois de tudo isso, posso afirmar, sem temor de erro, que essas descobertas são completamente falsas”, esclareceu ele na matéria intitulada “O êxodo que não existiu”.

Uma das teses de Ron Wyatt era a de que o Golfo de Áqaba, perto de Nuweiba, seria o local da travessia dos hebreus. Ali, num trabalho arqueológico submarino, Wyatt disse ter encontrado ossos humanos e rodas das carruagens de faraó cobertas de corais. Numa foto publicada na internet e disseminada num PowerPoint via e-mail, aparece uma roda de “ouro” com quatro raios (aro quádruplo), mostrando semelhança com algumas rodas de carruagens antigas expostas em museus.

“O que Wyatt não contou é que os egípcios tinham dois tipos de carruagem: uma para a guerra, com aro sêxtuplo […] e uma para passeios ocasionais, a quádrupla, que ele disse ter encontrado. Se a dita roda fotografada por Wyatt fosse mesmo autêntica, teríamos de perguntar por que faraó teria usado carruagens de passeio para perseguir o povo hebreu e deixado em casa as carruagens de guerra?”, explicou Silva, que será o autor de uma matéria de capa sobre arqueologia na RA de junho.

Conforme observou o apresentador do programa Evidências, da TV Novo Tempo, as peças fotografadas por Wyatt provavelmente proviessem de navios cargueiros que afundaram na região entre 1869 e 1981. A cidade de Hurghada, ao norte do Mar Morto, chega a abrigar um sítio turístico para mergulhadores que desejam ver destroços de navios naufragados ali.

Exemplos como esse demonstram que é preciso usar o “desconfiômetro” ao se deparar com informações que tentam provar a historicidade da Bíblia a qualquer custo. Por isso, Luiz Gustavo sugere que, ao se deparar com uma notícia sobre arqueologia bíblica, a pessoa busque saber o nome do pesquisador envolvido e o nome da cidade em que a descoberta aconteceu, além de ver se existem artigos mais sérios publicados a respeito do assunto. Pautar-se unicamente por aquilo que foi publicado em sites de notícias evangélicas é arriscado.

“Se pretendemos transmitir uma mensagem verdadeira a respeito das Sagradas Escrituras, devemos fazer uso de argumentos verdadeiros no tocante à sua historicidade, não de boatos cibernéticos. Causamos grande estrago para a reputação da Bíblia quando compartilhamos notícias falsas no nosso zelo por defendê-la, ou simplesmente para ganhar likes em uma publicação”, ressalta.


Relativização da verdade

Afinal, por que as pessoas acreditam e disseminam notícias claramente falsas? Conforme argumentou o filósofo e professor da PUC-SP Luiz Felipe Pondé na palestra proferida no fórum da Aner, uma possível resposta é que as pessoas consomem o que vai ao encontro da sua visão de mundo. “Consumimos mentiras porque gostamos de consumir o que nos diverte e o que reforça nossos valores”, disse.

Confirmando essa ideia, Eugênio Bucci, jornalista e professor da Universidade de São Paulo (USP) que também palestrou no evento, argumentou que a paixão e o prazer se tornaram fatores decisivos na escolha das informações, em detrimento da razão.
Pondé acredita que esse fenômeno também seja um reflexo do pensamento relativista que se fortaleceu desde o século 19. Essa tradição filosófica levou ao niilismo e, consequentemente, à negação ou à relativização da verdade.

Do ponto de vista da psicologia, também é possível identificar algumas causas do problema. O psicólogo Hélio Furtado argumenta que hoje em dia as pessoas estão confusas e com o senso crítico bastante comprometido. “Atribuo esse fenômeno à cultura narcisista e, em consequência, à falta de sentidos duradouros nas relações pessoais e espirituais. Desnorteadas, as pessoas compartilham e multiplicam sem pensar e se empolgam com fake news exatamente porque o real e factível na sua própria vida carece de sentidos adequados para as coisas mais simples do cotidiano”, analisa.

Para ele, isso se manifesta tanto na necessidade de postar tudo que acontece numa rede social em busca de publicidade como no sensacionalismo inerente às farsas da internet. “Estranhamente, o homem contemporâneo dá mais importância ao que não é real, mas soa como novidade, do que ao que é real e que deveria dar sentido a tudo o que ele pensa, fala e faz”, completa.


Consumo de informações sem critério

A falta de filtros em relação às informações que circulam na internet vem na esteira de uma tendência que se fortaleceu nos últimos anos: a preferência do público pelo consumo de notícias nas redes sociais.
Uma das conclusões do Reuters Institute Digital News Report de 2016, levantamento que explorou os hábitos online de mais de 50 mil pessoas de 26 países, mostrou que metade deles (51%) usavam as mídias sociais, especialmente o Facebook, para encontrar, ler/assistir e compartilhar notícias. Destas, 12% tinham as redes sociais como o principal meio de se informar sobre o que acontece no mundo.

No Brasil, que figura como 3º do ranking, atrás apenas da Grécia (74%) e da Turquia (73%), o percentual daqueles que disseram consumir notícias nas redes sociais foi de 72%. Entre os participantes da pesquisa, o país também foi o que registrou o maior crescimento desse hábito ao longo de 2016.
O lado preocupante dessa tendência está relacionado ao que foi apontado por outras duas pesquisas recentes. A primeira delas, realizada pela Universidade Stanford, na Califórnia (EUA), envolveu alunos da educação básica e universitários em 12 estados norte-americanos. Eles foram levados a avaliar as informações apresentadas em postagens nas redes sociais. Com base nas mais de 7,8 mil respostas obtidas, os pesquisadores chegaram à conclusão de que, em geral, eles tinham dificuldade de discernir quais fontes de informação eram verdadeiras e quais eram falsas.

Já a pesquisa Media Insight Project, iniciativa da agência Associated Press e do American Press Institute, revelou que a credibilidade de uma notícia divulgada nas redes sociais dependia mais de quem havia compartilhado o conteúdo do que da própria fonte da informação.
Usando uma rede social semelhante ao Facebook, um site fictício e conteúdos com a assinatura da AP para realizar o experimento, eles perceberam que os participantes do teste se mostraram mais dispostos a considerar verdadeiras aquelas notícias que haviam sido compartilhadas por celebridades em que confiavam, independentemente da fonte que havia publicado originalmente o conteúdo. Uma evidência disso foi que 52% dos pesquisados disseram que acreditavam que a notícia fosse verdadeira pelo fato de ela ter sido compartilhada por figuras de sua confiança, enquanto somente 32% disseram a mesma coisa ao ver que a informação tinha sido divulgada nas redes sociais por alguém menos confiável.

Também chamou a atenção dos pesquisadores o fato de que apenas dois em cada dez foram capazes de identificar a autoria da informação algum tempo depois de serem submetidos ao experimento. Em contrapartida, metade dos participantes disse que lembrava da pessoa que havia compartilhado a notícia.
Embora tenha sido feita com base na disposição das pessoas em compartilhar informações divulgadas nas redes sociais por celebridades, as conclusões do estudo parecem indicar um comportamento comum em outros círculos de influência. “O estudo não considerou amigos no Facebook, como o seu tio ou companheiro de faculdade, mas as implicações são claras. As pessoas estão recebendo cada vez mais notícias de seus feeds de mídia social, e as crenças de seus ‘amigos’ determinam o que eles veem regularmente, assim como um editor que toma decisões sobre o que vai para um jornal”, divulgou o site da Associated Press.

“Pessoas das quais gostamos e em quem confiamos podem exercer grande influência não só no que vemos, mas no que acreditamos. Se confiamos nelas, transmitimos essa confiança para as notícias que eles compartilham”, acrescenta Tom Rosenstiel, diretor-executivo do American Press Institute.

Era da pós-verdade

A chamada era da “pós-verdade”, neologismo que foi eleito pelo dicionário Oxford como palavra do ano em 2016, tem despertado fortes reações por parte das mídias tradicionais em várias partes do mundo. Não é por acaso que, em alguns países, o Dia da Mentira (1º de abril) será seguido do International Fact-Cheking Day, data comemorativa criada com o intuito de ressaltar a importância da prática de checagem de dados entre os leitores. Paralelamente, estão surgindo dezenas de sites e até mesmo agências de notícias com a prerrogativa de serem “detetives” virtuais. Segundo o Knight Center, vinculado à Universidade do Texas, hoje existem 114 iniciativas de fact-checking em 47 países, a maior parte nas Américas e na Europa.

Ciente dos reflexos que a divulgação indiscriminada de informações pode ter para a reputação da igreja, a liderança adventista também tem buscado conscientizar pastores e membros quanto às implicações da imprudência digital. Aliás, o assunto será tratado num dos artigos da edição de maio/junho da revista Ministério, produzida pela Casa Publicadora Brasileira.

Numa época de tanta boataria cibernética que ganha repercussão num piscar de olhos, é preciso ter sensibilidade e agir com cautela, submetendo tudo ao “teste do polígrafo”. Também é preciso ter consciência de que compartilhar inverdades só contribui para gerar sensacionalismo, preocupações desnecessárias, fanatismo e “reformas” motivadas pelos motivos errados (especialmente pelo medo), além de atrair a desconfiança e o opróbrio sobre a igreja. Em longo prazo, o resultado é o desânimo e o ceticismo.
“Não acreditemos apressadamente em tudo o que se diz na internet, nem propaguemos o boato através de e-mails do tipo ‘FWD’. A descoberta de uma fraude pode colocar em descrédito a verdadeira mensagem que devemos anunciar”, conclui Rodrigo Silva.



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