31 agosto 2016

A imbecilidade e a decadência moral



Intelectualidade e racionalidade estão em baixa. Basta observar a extrema exaltação do corpo e exploração da sexualidade como mercado e brinquedo do prazer. Enquanto isso, os nerds são propagados como pessoas bestas, esquisitas, com comportamentos ridículos, com óculos arredondados e cabelos cobrindo a testa. O preconceito enxertado contra o cidadão apaixonado pelo estudo, pelo saber e intelectualidade é visível em uma sociedade cada vez mais embrutecida e bestializada.

Leandro Karnal, filósofo e historiador, entende que nunca se leu tanto como nos dias atuais, todavia, embora seja possível reconhecer a constatação de Karnal como verídica, por minha própria conta, me arrisco a afirmar que é também possível que nunca tivemos, ao mesmo tempo, uma geração tão estúpida. As pessoas, especialmente a juventude, estão lendo muito, de fato, pois se somados os textos picotados em twitters, facebooks e whatsapps lidos diariamente, é bem provável que a somatória dessas escritas, poderia resultar em um nível de leitura bem superior ao que se leria naturalmente em livros. Porém, a quantidade de leitura feita não significa aumento de conhecimento e de intelectualidade. Eu posso naturalmente ser um grande leitor, porém, ao mesmo tempo, ser ainda um profundo ignorante.

Alberto Manguel, argentino, filósofo contemporâneo, reconhece a precocidade da intelectualidade mesmo em fase amadora em vários níveis da sociedade. Segundo a Folha, “Manguel sabe ser representante de uma espécie em extinção: o homem de letras, aquele que parece uma enciclopédia do saber humanístico. "O intelectual é uma espécie em extinção. Vivemos em um mundo estruturado em torno da máquina comercial". Segundo Manguel, “o mundo contemporâneo não quer indivíduos que reflitam, por estar mais interessado em formar consumidores. Há um vazio de educação sobre a memória do passado comum, de nossos valores. Não diria que já tivemos uma sociedade justa. Mas no passado havia um esforço para questionar momentos injustos." (Leia a matéria na íntegra).

Outro filósofo que possuí crítica semelhante é Allan Bloom. Professor na Universidade de Chicago até a década de 80 e notável tradutor de Platão e Rousseau, afirmou que a decadência social e política do Ocidente no século XX foi causada por uma crise intelectual. Ele destacou a falta de objetivos das universidades e a falta de conhecimentos dos estudantes modernos. Esclareceu que a vida liberal, sem valores definidos substituiu a razão e a criatividade”. Bloom critica severamente como a democracia ocidental absorveu, talvez inconscientemente, ideias vulgarizadas de niilismo e de relativismo mascarado de tolerância. Retratando a superficialidade dos estudantes de seu tempo, em seu livro intitulado “O declínio da cultura ocidental” escreveu que a “falta de cultura”, no seu significado iluminista e não no que se transformou na pós-modernidade, “leva os estudantes a procurar informações onde elas estejam disponíveis, sem capacidade para distinguir entre o sublime e o reles, o conhecimento profundo e a propaganda. “ (p. 80).

Observando e comparando gerações, podemos perceber que a racionalidade tem sido destronada e em seu lugar, como norma padrão de vida, permaneceram o sentimentalismo e os prazeres indeterminados. Sob a prerrogativa do amor, as restrições perderam o seu valor. Os limites, as regras e uma vida centrada em princípios moralistas são fortemente rejeitados porque interferem, segundo o homem moderno, na legitimidade da verdadeira liberdade. Desta forma, qualquer obstrução ou lei que interfira na felicidade baseada no prazer e satisfação passa a ser encarada como fundamentalista e opressora. Quem ganha nesta história toda é a impunidade, a insubmissão e a ilegalidade. Não importando qual seja a liberdade, o relativismo pune como antidemocrática qualquer lei que limite a tal liberdade. Nos tempos antigos, liberdade significava ser livre de encrencas, infortúnios e tragédias que normalmente se configurava em uma vida regida por leis protetoras. No caso atual, a liberdade é reinterpretada como uma vida sem regras. A única regra é a que cada indivíduo estabelece para si mesmo alicerçada apenas nos desejos e paixões ou coletivos de um grupo homogêneo.

            Você pode estar imaginando em que esta realidade se harmoniza com declarações bíblicas. O cenário pintado pelos profetas nos faz olhar com as lentes do cumprimento profético. Jesus esclareceu que o final dos tempos seria semelhante aos dias de Noé e de Ló (Lc 17:20-37). Com esta ilustração, Ele está projetando para os dias finais da história uma terrível e catastrófica atmosfera de libertinagem, quebra de princípios e desvalores quanto à existência. A devassidão e a insanidade imoral seriam tão exacerbadas que influenciariam a própria religião cristã. O profeta que desenrola as cortinas do futuro para esta compreensão é Paulo. Ele escreveu que o final dos tempos seria difícil porque o próprio seio cristão abraçaria as ideias relativistas e liberais (II Tm 3:1-5). O Cristianismo seria vendido às custas das paixões e prazeres humanos sob a falsa prerrogativa do amor. 

Por fim, a irracionalidade unificada ao relativismo e à busca extasiante por prazeres estão projetando para o futuro próximo uma verdadeira epidemia de caos, insanidade e bestialidade. A este respeito a escritora Ellen White bem declarou que “A contínua transgressão das leis da natureza é uma contínua transgressão da lei de Deus. O atual peso de sofrimento e angústia que vemos por toda parte, a atual deformidade, decrepitude, doenças e imbecilidade que agora inundam o mundo, tornam-no, em comparação com o que poderia ser e Deus designou que fosse, um hospital; e a geração atual é débil em poder mental, moral e físico. Toda esta miséria tem-se acumulado geração após geração, porque o homem caído transgride a lei de Deus.” (Mente, Caráter e Personalidade, p. 416). Mas, coisas piores ainda virão pela frente. Quem viver verá.

Gilberto Theiss - Teólogo, Pastor, Pós-graduado em Filosofia e Pós-graduando em Ciência da Religião

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