28 abril 2016

A aparente contradição entre Paulo e Tiago sobre justificação


A aparente contradição entre Paulo e Tiago

Muitos têm questionado a unidade teológica sobre a justificação pela fé e lei entre Paulo e Tiago alegando contrariedades entre ambos no conceito da salvação.

Essa aparente contradição entre Paulo e Tiago foi levantada até por Martinho Lutero, levando-o a questionar o livro de Tiago se deveria fazer parte do Cânon. Lutero disse: “A epístola de Tiago é uma epístola cheia de falhas, porque não contém nada de evangelho”.

Quando lemos, especialmente Romanos 3:28 e Tiago 2:24, realmente corremos o risco de ficar confusos devido a aparente contradição.

Em Romanos 3:28, Paulo afirma que “o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei”. Passando os olhos no livro de Tiago 2:24, percebemos a aparente contradição na afirmação de Tiago que “uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente”.

Para complicar um pouco mais, Paulo em Romanos 4, usa Abraão como evidência da justificação pela fé, o contrário de Tiago 2:21 e 22, que também usa Abraão como referência, porém para afirmar a justificação pelas obras.

E agora, como entender e resolver essa contradição aparente?

Na verdade não tem nada contraditório nestas citações de Paulo e Tiago. Para entendermos, precisamos primeiro ter em mente que Paulo estava abordando o assunto da salvação na perspectiva divina e Tiago na perspectiva humana.

Veja abaixo de forma objetiva a relação da mensagem dos dois discípulos:

Paulo – Estava falando sobre a justificação diante de Deus. Para Deus nossas obras não tem valor para servirem como crédito de salvação.
Tiago – Estava falando sobre a justificação diante dos homens. Diante dos homens nossas obras precisam ser demonstradas porque evidenciam nossa fé.
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Paulo – Estava falando sobre a CAUSA, justiça pela fé que salva.
Tiago – Estava falando sobre o EFEITO, obras da fé que demonstram a verdadeira fé que santifica, que demonstra ação.
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Paulo – Fala da fé sem as obras para evidenciar a salvação e usa Abraão quando, mesmo passado de idade, creu que teria um filho. Gênesis 15.
Tiago – Fala da fé com as obras para evidenciar o resultado da salvação e usa Abraão quando esteve disposto a oferecer seu filho a Deus em sacrifício, Gênesis 22.
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Paulo – Usa Abraão em um contexto em que já estava justificado.
Tiago – Usa Abraão em um contexto em que prova que sua fé é verdadeira.
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Paulo – Evidencia que diante de Deus nossas obras não tem valor salvífico e que não são necessárias para mostrar que a nossa fé é verdadeira.
Tiago – Evidencia que diante dos homens nossas obras precisam mostrar que nossa fé é verdadeira, pois somos como espelhos para os outros.
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Paulo – Estava falando sobre a salvação pela fé.
Tiago – Estava falando que nossas obras precisam mostrar que nossa fé é genuína, verdadeira.
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Conclusão:

Pelo que vimos, não existe contradição entre ambos. O que ocorreu é que cada um pregou para grupos que iam aos dois extremos. Paulo enfrentou um grupo legalista, e Tiago enfrentou um grupo que cria na graça barata.

Gilberto Theiss é pastor no Estado do Ceará e pós graduado em Filosofia e Ciência da Religião

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